Luz Contínua com Fera Carvalho Leite
- Tom Peres

- 19 de abr.
- 3 min de leitura
A quinta edição do Projeto Luz Contínua encontra Fera Carvalho Leite em um território que ela domina: o corpo em estado de presença.
Atriz, bailarina, dubladora e empresária, Fera atravessa linguagens com a mesma intensidade com que sustenta o instante. Nosso primeiro encontro aconteceu na Casa de Teatro de Porto alegre, em uma aula de contato e improvisação.
Anos depois, ela chega ao estúdio para renovar seu portfólio —e o retrato se desdobra em conversa.
A seguir, leia a entrevista completa.
Existe um papel que te transformou profundamente?
Velha D+ segue me transformando. A cada vez que eu faço eu resgato a força que o texto me traz de ter coragem para viver plenamente meus paradoxos e a “resistir à quaisquer falsidades coletivas e difamações culturais que procuram anular a visão e a audição da alma”. Outro papel que me transformou e ainda transforma, talvez mais do que todos, é o papel de mãe na vida real.

O que ainda te desafia hoje como atriz?
Ser atriz já é um desafio em si. Escolher ser artista a cada dia, manter a qualidade da presença e a confiança no poder transformador que arte tem para seguir apesar de todas as adversidades e dificuldades. Em cena , a cada momento o desafio é encontrar a verdade na medida e na circunstância e realmente se conectar com o público, tocar os sentimentos. Parte vem de mim, parte vem da outra pessoa. É na troca que a magia acontece.
O que o corpo sabe que a mente ainda não entendeu?
O corpo sabe que é preciso parar um pouco para sentir, respirar com intenção, tocar e ser tocado com afeto, olhar com contemplação, escutar com atenção, falar com coerência. A pele é o sistema nervoso exposto (a mente exposta), e todos os nossos órgãos sensoriais são revestidos por pele. A pele sabe que precisa de contato e conexão para trazer informações de segurança e pertencimento. O corpo precisa de movimento e prazer produzidos por ele mesmo e na troca com o ambiente, com as outras pessoas. Em nome do prazer ou alívio da dor muita gente acaba intoxicando ainda mais o corpo, machucando pra ser visto, desejado, amado.

O que é beleza hoje pra ti?
É coerência, uma harmonia do todo, uma verdade expressa. É quando uma luz invisível emana de algo e o olho gruda ali. A beleza é algo interessante, curioso, às vezes misterioso.
O que te mantém viva fora do palco?
Sonhar com ele e com a plateia numa comunhão criando uma realidade fantástica.
Qual foi um momento de ruptura importante na tua vida?
A maternidade.
Onde tu encontra silêncio?
No meu Espaço Livre, na minha respiração.
O que te levou a criar o Fera Desperta?
A vontade de compartilhar meu método com as pessoas. Apresentar teoria e prática do Breathwork, o poder transformador da respiração consciente. Eu me especializei em Pedagogias do Corpo e da Saúde, Neurociência da Respiração e em Comunicação Não Violenta. Juntei tudo isso e entendi que minhas práticas formaram um acrônimo de FERA: facilitar o Fluxo entre Empatia Respiração e Autenticidade (F.E.R.A.). Ou seja é o encontro entre as minhas e especializações: corpo, saúde, respiração e expressão autêntica. E tenho oferecido atendimentos individuais para regulação do sistema nervoso através da respiração e da CNV para pessoas que se sentem ansiosas, estressadas, com insônia, irritadas e querem melhorar seu estado emocional e relacional consigo e com as outras pessoas em busca de uma qualidade de presença mais autêntica na vida.

O que falta para as pessoas se reconectarem com o corpo?
Valoriza-lo. Muitas vezes isso só acontece depois de uma doença ou uma lesão. E entrar no tempo e espaço do corpo, percebe-lo, escuta-lo e cuidar do que ele precisa.
O que te emociona fácil?
A vulnerabilidade do ser humano, da vida. O contato profundo com os sentimentos e os valores frente às circunstâncias desafiadoras.
Do que tu tem medo hoje?
As catástrofes climáticas sempre foram meus pesadelos recorrentes. Viver a enchente e ver as notícias do que está acontecendo no mundo é aterrorizante. Assim como as violências que os homens criam sejam em guerras, sejam nas casas com assassinatos de mulheres e crianças sejam no ambiente da internet. Tenho medo dos extremos.
O que ainda quer viver?
Quero ver meu filho crescer como um homem gentil e respeitoso.
Se pudesse fazer novamente um espetáculo ou a cena de um espetáculo antes de morrer, qual seria?
Eu lembrei da minha última cena no Circo Girassol que eu voava saltando de um trapézio com elásticos na cintura e girava no espaço voltando para o balanço do trapézio e saltava de novo em mais voos e giros. Era uma sensação indescritível!


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